
No mundo globalizado, crises financeiras aparentemente localizadas num determinado país podem rapidamente espalhar-se para o mercado internacional, afetando o rendimento de variada gama de aplicações financeiras.
Nesse contexto, a quebra e os vultosos prejuízos de diversos fundos de investimento, muitos deles administrados por instituições financeiras com tradição no mercado, evidenciam a necessidade da gestão de recursos de terceiros pautar-se pelo profissionalismo e pelas práticas de boa governança.
Essa conclusão, sem dúvida, também se aplica a CENTRUS. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar – Abrapp -, os fundos de pensão brasileiros acumulavam R$395 bilhões em ativos, no mês de maio, o que corresponde à cerca de 18% do PIB.
Nos EUA, em comparação, os ativos dos fundos de pensão chegam a 100% do PIB. Isto demonstra a grande importância dos fundos de pensão para a economia como um todo, e também o seu grande potencial de crescimento no Brasil nos próximos anos.
Nesse contexto, a reativação da CENTRUS, como alternativa viável de complementação previdenciária, é de especial importância para nós, servidores do Banco Central do Brasil. Por outro lado, o recente terremoto nos mercados financeiros internacionais evidencia a necessidade imperiosa da gestão da CENTRUS, cujas aplicações financeiras atualmente ultrapassam R$8 bilhões, ser pautada pelo profissionalismo, conhecimento técnico e práticas de boa governança.
Atividades tais como definição da política de investimento de longo prazo, com determinação da alocação ótima entre as diversas classes de ativos e do nível de risco apropriado diante do passivo, institucionalização crescente do processo decisório, implantação de sistemas de gerenciamento de aplicações, de administração e de controle de risco adequados, devem ser prioridades para a administração, a fim de que a carteira de investimentos possa cumprir com seus objetivos e atravessar satisfatoriamente os solavancos do mercado financeiro.
Durante os 11 anos em que participei da definição do processo de investimento das reservas internacionais brasileiras, tive a oportunidade de participar da implementação desses conceitos na gestão das divisas do País. Mais ainda, observei inúmeros casos no mercado internacional nos quais a negligência desses conceitos conduziu ao desastre financeiro.
Acredito que essa experiência será de grande valia para a CENTRUS.
A crise no mercado imobiliário nos EUA conhecido como Sub-Prime, em curso desde o início do ano, intensificou-se recentemente. O Sub-Prime abrange o segmento do crédito imobiliário dedicado a tomadores de crédito com histórico ruim.
Apesar da especificidade desse nicho, o tamanho do mercado impressiona: o volume total de títulos lastreados por esse tipo de crédito é de cerca de USD 1,3 trilhões, correspondendo a aproximadamente 15% do mercado imobiliário norte-americano.
O mercado de títulos do tesouro norte-americano, a título de comparação, gira em torno de USD 4,4 trilhões.
Na origem da crise encontra-se a expressiva valorização do preço dos imóveis nos EUA nos últimos 10 anos, sustentada pela elevada liquidez global. Não é objetivo desse texto discorrer sobre os fatores que contribuíram para a abundante liquidez global, mas alguns merecem ser mencionados, tais como: taxas de juros reais historicamente baixas nas principais economias do mundo; elevado déficit em conta corrente nos EUA; e os modelos econômicos seguidos pelas economias do sudeste asiático, cujo foco exportador em detrimento do consumo, num contexto de câmbio fixo, gera excesso de poupança.
Essa conjuntura internacional "encharcada" de liquidez exerceu ao longo dos últimos anos pressão altista sobre o preço de inúmeros ativos financeiros. O rendimento das aplicações em geral, como conseqüência, diminuiu, em meio a um ambiente de redução de volatilidade.
A manutenção da rentabilidade das carteiras de investimento, nesse contexto, passou a depender cada vez mais do aumento da exposição ao risco, quer seja através da compra de ativos de perfil de crédito mais arriscado – como é o caso dos títulos sub-prime – ou da alavancagem – operação em que, além do seu capital próprio, o investidor aplica recursos captados por empréstimos garantidos pela própria aplicação (no caso, os títulos sub-prime).
Como a lei da gravidade é uma máxima para aplicações financeiras, a implosão da bolha especulativa no mercado imobiliário acabou com a festa: com a perda do valor do colateral (as próprias moradias) o preço dos títulos sub-prime despencaram, deixando de cobrir o valor dos empréstimos tomados pelos fundos alavancados para sua aquisição.
Quem emprestou dinheiro a esses fundos, passou a exigir garantias adicionais. As garantias extras requisitadas podem ser oferecidas em ativos financeiros, ou mesmo em espécie – no processo de recomposição das garantias, ativos financeiros em outros mercados ou países são liquidados, dando início ao processo de contaminação dos mercados em escala global.
Nesse processo traumático de ajuste a uma nova realidade, mesmo instituições tradicionais encontram-se no "olho do furacão": o Bear Stearns, instituição fundada há 83 anos, reconhece que o valor de dois de seus fundos de investimento, com capital de cerca de USD 1,5 bilhões, e aplicações superiores a USD 20 bilhões, "virou pó"; a legendária Goldman Sachs anuncia que aportará USD 3 bilhões num de seus maiores fundos, afetado pela volatilidade dos mercados; o IKB, tradicional instituição da Alemanha destinada ao financiamento de pequenas e médias empresas no setor industrial daquele país, 3 bilhões, para Îrecebe pacote de auxílio de bancos alemães em valor superior a cobrir perdas decorrentes de aplicações no segmento "sub-prime" dos EUA; o banco francês BNP Paribas é obrigado a suspender os resgates em três fundos de investimento, por conta de prejuízos também no sub-prime e da dificuldade na precificação dos ativos.
Os principais Bancos Centrais, para evitar o colapso do crédito, assumem o papel clássico de "emprestador de última 94 bi no sistema bancário, para Îinstância": o Banco Central Europeu injeta evitar uma crise de liquidez, o Federal Reserve, USD 24 bilhões.
Toda essa turbulência, portanto, demonstra que a clareza e transparência da política de investimento, a robustez nos controles de risco e as práticas de boa governança, quando negligenciadas, podem comprometer irremediavelmente a solidez dos investimentos.
Renato Jansson Rosek
Candidato ao Conselho Deliberativo
Nesse contexto, a quebra e os vultosos prejuízos de diversos fundos de investimento, muitos deles administrados por instituições financeiras com tradição no mercado, evidenciam a necessidade da gestão de recursos de terceiros pautar-se pelo profissionalismo e pelas práticas de boa governança.
Essa conclusão, sem dúvida, também se aplica a CENTRUS. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar – Abrapp -, os fundos de pensão brasileiros acumulavam R$395 bilhões em ativos, no mês de maio, o que corresponde à cerca de 18% do PIB.
Nos EUA, em comparação, os ativos dos fundos de pensão chegam a 100% do PIB. Isto demonstra a grande importância dos fundos de pensão para a economia como um todo, e também o seu grande potencial de crescimento no Brasil nos próximos anos.
Nesse contexto, a reativação da CENTRUS, como alternativa viável de complementação previdenciária, é de especial importância para nós, servidores do Banco Central do Brasil. Por outro lado, o recente terremoto nos mercados financeiros internacionais evidencia a necessidade imperiosa da gestão da CENTRUS, cujas aplicações financeiras atualmente ultrapassam R$8 bilhões, ser pautada pelo profissionalismo, conhecimento técnico e práticas de boa governança.
Atividades tais como definição da política de investimento de longo prazo, com determinação da alocação ótima entre as diversas classes de ativos e do nível de risco apropriado diante do passivo, institucionalização crescente do processo decisório, implantação de sistemas de gerenciamento de aplicações, de administração e de controle de risco adequados, devem ser prioridades para a administração, a fim de que a carteira de investimentos possa cumprir com seus objetivos e atravessar satisfatoriamente os solavancos do mercado financeiro.
Durante os 11 anos em que participei da definição do processo de investimento das reservas internacionais brasileiras, tive a oportunidade de participar da implementação desses conceitos na gestão das divisas do País. Mais ainda, observei inúmeros casos no mercado internacional nos quais a negligência desses conceitos conduziu ao desastre financeiro.
Acredito que essa experiência será de grande valia para a CENTRUS.
A crise no mercado imobiliário nos EUA conhecido como Sub-Prime, em curso desde o início do ano, intensificou-se recentemente. O Sub-Prime abrange o segmento do crédito imobiliário dedicado a tomadores de crédito com histórico ruim.
Apesar da especificidade desse nicho, o tamanho do mercado impressiona: o volume total de títulos lastreados por esse tipo de crédito é de cerca de USD 1,3 trilhões, correspondendo a aproximadamente 15% do mercado imobiliário norte-americano.
O mercado de títulos do tesouro norte-americano, a título de comparação, gira em torno de USD 4,4 trilhões.
Na origem da crise encontra-se a expressiva valorização do preço dos imóveis nos EUA nos últimos 10 anos, sustentada pela elevada liquidez global. Não é objetivo desse texto discorrer sobre os fatores que contribuíram para a abundante liquidez global, mas alguns merecem ser mencionados, tais como: taxas de juros reais historicamente baixas nas principais economias do mundo; elevado déficit em conta corrente nos EUA; e os modelos econômicos seguidos pelas economias do sudeste asiático, cujo foco exportador em detrimento do consumo, num contexto de câmbio fixo, gera excesso de poupança.
Essa conjuntura internacional "encharcada" de liquidez exerceu ao longo dos últimos anos pressão altista sobre o preço de inúmeros ativos financeiros. O rendimento das aplicações em geral, como conseqüência, diminuiu, em meio a um ambiente de redução de volatilidade.
A manutenção da rentabilidade das carteiras de investimento, nesse contexto, passou a depender cada vez mais do aumento da exposição ao risco, quer seja através da compra de ativos de perfil de crédito mais arriscado – como é o caso dos títulos sub-prime – ou da alavancagem – operação em que, além do seu capital próprio, o investidor aplica recursos captados por empréstimos garantidos pela própria aplicação (no caso, os títulos sub-prime).
Como a lei da gravidade é uma máxima para aplicações financeiras, a implosão da bolha especulativa no mercado imobiliário acabou com a festa: com a perda do valor do colateral (as próprias moradias) o preço dos títulos sub-prime despencaram, deixando de cobrir o valor dos empréstimos tomados pelos fundos alavancados para sua aquisição.
Quem emprestou dinheiro a esses fundos, passou a exigir garantias adicionais. As garantias extras requisitadas podem ser oferecidas em ativos financeiros, ou mesmo em espécie – no processo de recomposição das garantias, ativos financeiros em outros mercados ou países são liquidados, dando início ao processo de contaminação dos mercados em escala global.
Nesse processo traumático de ajuste a uma nova realidade, mesmo instituições tradicionais encontram-se no "olho do furacão": o Bear Stearns, instituição fundada há 83 anos, reconhece que o valor de dois de seus fundos de investimento, com capital de cerca de USD 1,5 bilhões, e aplicações superiores a USD 20 bilhões, "virou pó"; a legendária Goldman Sachs anuncia que aportará USD 3 bilhões num de seus maiores fundos, afetado pela volatilidade dos mercados; o IKB, tradicional instituição da Alemanha destinada ao financiamento de pequenas e médias empresas no setor industrial daquele país, 3 bilhões, para Îrecebe pacote de auxílio de bancos alemães em valor superior a cobrir perdas decorrentes de aplicações no segmento "sub-prime" dos EUA; o banco francês BNP Paribas é obrigado a suspender os resgates em três fundos de investimento, por conta de prejuízos também no sub-prime e da dificuldade na precificação dos ativos.
Os principais Bancos Centrais, para evitar o colapso do crédito, assumem o papel clássico de "emprestador de última 94 bi no sistema bancário, para Îinstância": o Banco Central Europeu injeta evitar uma crise de liquidez, o Federal Reserve, USD 24 bilhões.
Toda essa turbulência, portanto, demonstra que a clareza e transparência da política de investimento, a robustez nos controles de risco e as práticas de boa governança, quando negligenciadas, podem comprometer irremediavelmente a solidez dos investimentos.
Renato Jansson Rosek
Candidato ao Conselho Deliberativo
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